Sentada na escada de um prédio abandonado, ela chorava compulsivamente deixando as lágrimas misturar-se com a chuva. Esperou que as batidas do seu coração se acalmassem e assim a dor diminuiria, mas ele estava tão partido que ate o simples ato de respirar doía-lhe a alma. Nunca imaginou que pudesse sofrer tanto assim.
Foi sentada ali, que ele a viu pela primeira vez e se encantou.
Mesmo molhada com a maquiagem borrada e os cabelos escondendo parcialmente o rosto, ela estava linda. Permaneceu parado do outro lado da rua observando-a com curiosidade e receio. Desejava aproximar-se e lhe oferecer o ombro, mas percebeu que pelo modo como erguia o rosto para o céu esperando que a chuva lavasse sua dor era melhor esperar por uma próxima ocasião. Certamente ela era uma daquelas pessoas que preferiam sofrer em silencio, ter a dor só para ela, isto sim era egoísmo. Mas quem não era egoísta nesse mundo? Respirou fundo, despediu-se dela num gesto silencioso e pose a caminhar.
Ao longe viu um homem vestido todo de preto, botas macias e pretas, jeans preto, jaqueta de couro preta e um guarda-chuva também preto caminhando com elegância e despreocupada com a chuva que caia. Em torno dele um arco Iris brilhava como numa espécie de pompa. Fechou os olhos e tornou a abri-los, e as cores continuavam ali. Cerrou os olhos forçando-os a enxergar com exatidão... Vermelho... Azul... Roxo... Amarelo... O homem virou a esquina e as cores se foram com ele.
A noite caia com uma rapidez surpreendente e a chuva persistia.
Jullie já não tinha mais o que chorar, mas o coração ainda doía-lhe. De repente percebeu como fora ingênua ao sair de casa em busca do irmão mais velho Cai, seu melhor amigo.
Naquela manhã, a família Lioncurt foi informada de um terrível acidente. Caio havia morrido. Jullie entrou em choque com a noticia, não era possível o seu irmão, o seu melhor amigo estava morto. Não, não, não! Aquilo não poderia estar acontecendo, não com ela.
Então desesperada saiu de casa determinada a encontrá-lo em algum canto daquela cidade. Mas horas e horas de busca naquela chuva era inevitável não pensar que realmente ele estava morto.
Ela fechou os olhos e encostou a cabeça nos joelhos dobrados. Sentia-se muito mais aquecida agora. Deixou a mente vagar e viu Caio, sorrindo para ela. Os braços em volta dela eram fortes e seguros e então relaxou feliz por se livrar do medo e da tensão.
Jullie estava em casa. Estava em seu lugar. Caio jamais a deixaria.
Mas em vez de abraçá-la, Caio a sacudia. Ele estava estragando seu descanso.
Ela viu o rosto dele pálido e urgente, os olhos escuros de dor. Tentou dizer a ele para ficar quieto, mas ele não ouvia. Jullie levante-se disse ele, e Jullie sentiu a força daqueles olhos escuros forçando-a a agir.
Jullie, levante-se agora...
- Jullie levante-se- a voz era alta, aguda e assustada. - Vamos Jullie. Levante-se. Não podemos carregar você!
Picando, Jullie colocou um rosto em foco. Era pequeno e com formato de coração;a pele clara,quase transparente, uma mecha de cabelos negros emoldurava a figura.
Os olhos castanhos arregalados.
- Keron- disse ela, devagar. – O que esta fazendo aqui?
-Esta me ajudando a procurar você- disse uma segunda voz,mais baixa,do outro lado de Jullie. Ela se virou devagar e viu sobrancelhas elegantes e arqueadas e uma tez morena.
Os olhos de Taylor, em geral tão irônicos agora pareciam também preocupados. – Levante-se, Jullie, a não ser que queira ficar doente.
Jullie estava encharcada.
Rigidamente, Ela se levantou, apoiando-se fortemente nas duas meninas. Elas a conduziram para o carro de Keron.
Devia estar mais quente dentro do carro, as terminações nervosas de Jullie voltavam à vida, fazendo-a tremer, sinalizando o quão frio estava seu corpo. Ele se foi, pensou enquanto Keron dava a partida.
Há meia hora seguinte ate a casa de Jullie foi uma tortura. O silencio e o desconforto se instalaram no carro deixando ainda mais as duas garotas tensas e Jullie em silencio, mergulhada em pensamentos.
-Eu sinto muito- disse Taylor tristonha.
Jullie abaixou a cabeça tentando reprimir os tremores violentos. Então, elas entraram na quinta avenida e estacionaram na frente da casa vitoriana.
Tia Morgana esperava do lado de fora,segurando um guarda-chuva e cobertores.
-Eu sabia que se a encontrassem você estaria meio congelada- disse ela numa voz propositalmente animada enquanto estendia a mão para Jullie. -Esta chovendo muito hoje, nem acredito nisso!
-Onde está o corpo?-perguntou Jullie, sem emoção nenhuma na voz.
O rosto da Tia Morgana perdeu a cor.
-Está na sala.
-Entre.
Quando ela obedeceu, entrando na sala, a conversa parou. Jullie reparou nos rostos que se viraram para ela, os olhos curiosos e furtivos e expressões preocupadas. Não era o tipo de olhar que ela desejava receber. Foi um amigo da faculdade do Caio que abriu a porta para ela.
No centro da sala. O caixão de madeira escura estava suspenso sob dois suportes e velas queimavam ao lado do caixão, Coroas de flores com mensagens de amor e saudades eternas enfeitavam os cantos do ambiente. Alguns conhecidos que rodeavam o caixão despediram-se e deram espaço para que ela pudesse se aproximar.
Caio estava incrivelmente belo. A expressão tranqüila.
Jullie aproximou-se do irmão e lagrimas escorrem pela face, tocou suas mãos sob a barriga e elas estavam rígidas e frias. As memórias invadiam sua mente. Aquelas mãos tocaram piano para ela,preparavam os melhores bolos da face da terra e a confortavam quando estava triste. Mordeu os lábios ao ver o rosto dele. O cabelo escuro normalmente bagunçado e hoje estava arrumado. Parecia que dormia, um sono pesado, mas tranquilo.
Ele está morto, uma voz fria ecoava no fundo de sua cabeça.
Ela apoiou a cabeça em seu peito querendo ouvir aquele coração bater, bater forte.
-Por quê?! – disse ela, quebrando o silencio. – Por quê?! Se existe um Deus ai em cima, por que o levou? Porque, me responda!
Ela abraçou-se ao caixão e pedia aos gritos que o irmão levantasse e desse um susto em todos.
-Não, não, Caio não me deixe!- gritou desesperada. – Caio, Caio... Acorda! – mãos firmes e fortes a seguraram pela cintura afastando-a do caixão. – Me deixa!- gritava Jullie espantado a todos. - Me solta, ele é o meu irmão!
Ela se debatia e xingava entre lagrimas e soluços.
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